Lesão do Ligamento Cruzado Anterior – LCA

Lesão do Ligamento Cruzado Anterior – LCA


O Joelho é uma articulação de exigências extremas na prática esportiva e deve associar dois paradoxos: ser estável o suficiente para suportar peso e ter liberdade de movimento absoluta para poder transmitir a energia cinética do movimento. Por este motivo, é uma articulação extremamente suscetível ao trauma e, até mesmo movimentos aparentemente inofensivos podem lesar suas estruturas e comprometer a performance do esportista.

ligamento cruzado anterior - lca

As taxas de incidência de lesões ao joelho em mulheres atletas vêm crescendo anualmente. Isto se deve, provavelmente à maior participação nos esportes de todos as faixas etárias. Nos EUA, estima-se que hajam, anualmente, 90.000 lesões agudas do ligamento cruzado anterior.

O entorse é, disparadamente o movimento que mais lesa estruturas intrínsecas do joelho. Estudos recentes mostram que a mulher tem chances maiores da romper o ligamento cruzado anterior em relação ao homem e a isso atribui-se fatores hormonais, anatômicos e neuromusculares.

No futebol, esporte muito popular no Brasil, o trauma ocorre com o pé fixo ao solo, ou preso à perna do adversário, ocorrendo rotação anormal interna ou externa do fêmur em relação à tíbia. Os ligamentos e meniscos, neste momento, submetidos às estresses tênseis acima do suportado, desencadeiam um arco reflexo medular com contratura dos músculos anterior (quadríceps) e posterior (isquiotibiais) da coxa, na tentativa de proteger a articulação. Quando a energia do trauma é superior a este mecanismo de defesa, há deformação e ruptura das estruturas envolvidas. O resultado são as distensões musculares, estiramentos e rupturas ligamentares e meniscais. Entorses com o indivíduo agachado e que rotaciona o joelho de maneira anormal também podem lesar e, estatisticamente, estão mais ligados a lesões dos meniscos. Ocorre, por exemplo, quando um escalador move o joelho de maneira anormal e súbita para subir uma rocha.

Outro mecanismo de lesão é a desaceleração súbita, classicamente, quando o indivíduo chuta o ar ao invés da bola, ou o adversário, no caso de lutas. Esta é a forma mais comum de lesão isolada ao ligamento cruzado anterior.

Via de regra, havendo lesão, há dor e contratura muscular e, muitas vezes, ela é maior em rupturas parciais de ligamentos, pois há maior ativação de receptores de dor presente dentro das estruturas envolvidas. Quando há inchaço instantâneo, há em 80 a 90% dos casos, ruptura do ligamento cruzado anterior, associada ou não a lesão de outras estruturas e, este se deve ao sangramento dentro da articulação, denominado, na linguagem médica de hematose.

ligamento cruzado anterior - lca

Modelo clássico da lesão do ligamento cruzado anterior por desaceleração.

Anatomia

Mas, afinal, o que vem a ser o ligamento cruzado anterior, meniscos, cartilagem?

Para que servem?

Observando-se um esquema anatômico simples do joelho, nota-se uma estrutura que parte detrás de uma proeminência óssea do fêmur, chamada de côndilo femoral e se insere na parte anterior da tíbia, entre as fixações dos meniscos. É o ligamento cruzado anterior, estrutura responsável por “segurar” a tíbia e evitar o movimento de translação dela sob o fêmur e por emitir informações sensoriais ao centro do movimento ao cérebro para que a pessoa tenha a sensação do movimento e tenha melhor coordenação motora. A isto se chama propriocepção.

Então, o ligamento cruzado anterior, além de simples estabilizador mecânico também é responsável pela coordenação motora? Sim, e o restabelecimento da mesma é muito importante no tratamento de suas lesões. A cartilagem é o “revestimento” em torno da extremidade do osso. Serve para a distribuição mais uniforme do peso e tem altíssima capacidade de deformação. É, portanto, estrutura de suma importância na dissipação de energia.

Os meniscos são uma espécie de “amortecedores”, localizados entre o fêmur e a tíbia e são divididos em 3 partes (cornos): anterior, médio e posterior. São também responsáveis por estabilizar o joelho, aumentam a congruência entre seus ossos, absorvem o impacto e também auxiliam na propriocepção.

ligamento cruzado anterior - lca

A seta mostra o ligamento cruzado anterior do joelho visto de frente.

Quando um joelho sofreu lesão ao ligamento cruzado anterior podendo ela ter sido total (ruptura) ou parcial (alongamento), denominamos em linguagem médica de “joelho LCA-deficiente”, ou seja, será uma articulação que experimentará instabilidade pela ausência ou insuficiência do ligamento cruzado anterior e passará por alterações do equilíbrio neuro-motor (proprioceptivas) na tentativa de restabelecer o equilíbrio neuromuscular comprometido na lesão. Em outras palavras: tanto o joelho, como outras articulações adjacentes terão que funcionar de maneira diferente a níveis pré-lesionais a fim de se evitar sintomas. Por isso, é comum encontrar pessoas que alteraram o seu padrão de marcha e, mesmo após uma cirurgia de reconstrução de ligamento cruzado anterior, continuam mancando, ou pisando de maneira errônea, desencadeando outros sintomas, como dores nos pés, nos quadris e nas costas.

A principal queixa de quem possui um “joelho LCA-deficiente” é o falseio, ou sensação de que o “joelho saiu e voltou ao lugar”, que pode ocorrer tanto em atividades da vida diária, como descer escadas, subir em um ônibus, correr e trotar, quanto em atividades esportivas, recreativas ou profissionais. A dor, quando presente, está ligada a lesão de outros ligamentos, como por exemplo o ligamento colateral medial, meniscos e lesões na cartilagem articular, discutidos em outro tópico.

Estudos recentes de biomecânica indicam que esta sensação de falseio se dá em até 30 graus de flexão do joelho, justamente a angulação usada no momento do drible e da mudança brusca de direção em esportes como o futebol, vôlei e tênis. Um “joelho LCA-deficiente” é, portanto, incompatível para estes tipos de atividades.

ligamento cruzado anterior - lcaMas, uma vez que haja insuficiência do ligamento cruzado anterior, qual a chance de se desenvolver o falseio no joelho?

Noyes, um respeitado autor norte-americano desenvolveu a regra dos terços: Após a lesão ao ligamento cruzado anterior, 1/3 das pessoas terão instabilidade imediata, 1/3 terão de maneira tardia e somente 1/3 não desenvolverá instabilidade.

De uma maneira geral, desenvolvendo-se ou não falseio, o “joelho LCA-deficiente” terá progressivamente melhoria do inchaço, e apresentará invariavelmente algum grau de atrofia da musculatura da coxa. Isto se deve, tanto ao desuso, quanto à perda do arco reflexo muscular do ligamento cruzado anterior, também chamado de reflexo de Leriche. Esta atrofia, que é muito variável entre os indivíduos, será o grande desafio durante a reabilitação e o que, muitas vezes faz com que a recuperação e o retorno ao esporte seja mais lento que o programado após uma cirurgia de reconstrução de ligamento cruzado anterior.

Pelo fato do LCA não cicatrizar, é de comum acordo entre a maioria dos autores no mundo de que tanto uma lesão total, quanto parcial, em pacientes ativos e que tenham queixas de falseio, que o individuo deve ser submetido à cirurgia de reconstrução do ligamento cruzado anterior para que possa restabelecer a estabilidade e função.

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